Tem, sim — mas ao contrário. O que está levando cada vez mais americanos a abrir mão do passaporte é o mesmo tipo de vínculo que, para o brasileiro que mora fora, se resolve com uma declaração entregue no prazo certo.
Nos últimos meses venho acompanhando um número que chama atenção: o Tesouro americano publica trimestralmente, no Federal Register, a lista de quem renunciou à cidadania dos EUA. No segundo trimestre de 2026 foram 1.781 nomes; no primeiro semestre, 3.243 — uma média de cerca de 1.360 por trimestre, o ritmo mais alto já sustentado por lá. A série vem subindo: 2.426 em 2021, 3.816 em 2022, 3.260 em 2023, 4.819 em 2024, 4.892 em 2025. Se o ritmo atual se mantiver, 2026 fecharia perto de 6.500 — atrás só do recorde de 2020, de 6.707. E um especialista ouvido pela reportagem que trouxe o dado (IMI Daily, com base na publicação do Tesouro) chama atenção para algo relevante: a lista capta só uma parte de quem sai — o número real tende a ser maior.
Por que um americano larga a cidadania — e o que isso não é
A primeira suspeita costuma ser política. Não é o que os dados mostram. O que pesa, segundo a própria reportagem, é outra coisa: os Estados Unidos tributam pela cidadania — o americano declara imposto lá onde quer que viva no mundo, mesmo sem nunca mais pisar no país. Isso puxa uma cadeia: o peso de cumprir o FATCA (a lei americana que obriga bancos estrangeiros a informar ao Fisco dos EUA as contas de clientes americanos), bancos fora dos EUA que preferem recusar ou fechar conta de cliente americano para não entrar nessa obrigação, e o exit tax — um imposto cobrado sobre o ganho ainda não realizado do patrimônio de quem se enquadra como “covered expatriate” (categoria de quem, ao renunciar, atinge certos critérios de patrimônio ou renda) no momento da renúncia.
Ou seja: o vínculo que pesa lá é a cidadania, e desfazê-lo custa caro — taxa, exit tax, fila de agendamento no consulado.
E o brasileiro que mora fora, onde entra nisso
Aqui a lógica se inverte. O Brasil não tributa pela cidadania — tributa pela residência fiscal. Quem sai do país e organiza a saída corretamente deixa de ser tributado aqui sobre a renda que recebe lá fora. O vínculo que pesa no caso brasileiro não é permanente por definição: ele se desfaz com um procedimento formal, dentro de prazo determinado, não com uma decisão irreversível de abrir mão de nacionalidade.
Isso não quer dizer que seja trivial — tem gente que descobre, anos depois de ter “deixado o Brasil na cabeça”, que a Receita ainda o considerava residente porque a saída nunca foi formalizada. Mas é uma diferença de grau, não de natureza, frente ao caso americano: aqui se resolve por declaração; lá, por renúncia de cidadania.
Vale comparar os dois sistemas sem tirar conclusão apressada
Não dá para dizer que um sistema é “melhor” — tributação por cidadania e tributação por residência respondem a lógicas fiscais diferentes, cada uma com seus próprios mecanismos de controle e reciprocidade internacional. O que dá para dizer é que o custo de desfazer o vínculo varia muito conforme o país. Para o americano, é uma decisão que não tem meio-termo. Para o brasileiro, existe um caminho formal e reversível em tese, mas que também exige atenção a detalhes — tempo de permanência fora, tipo de vínculo mantido com o Brasil, o que se faz com patrimônio e renda no período de transição.
Esse dado, aliás, também ajuda a entender por que o tema do exit tax voltou a aparecer nas notícias: mesmo em sistemas diferentes, o momento de sair costuma ser o ponto em que o Fisco quer fechar a conta com o contribuinte — seja nos EUA, seja no Brasil.
O que fazer se você está organizando sua saída do Brasil
Nenhuma novidade regulatória mudou a forma como o Brasil trata a saída fiscal — o que essa notícia americana traz é um espelho: mostra que, em qualquer sistema, o vínculo fiscal com um país não se desfaz sozinho, ele precisa ser formalizado. Cada situação — tempo fora, tipo de renda, patrimônio mantido aqui ou lá — pede uma leitura própria. Se você já mora fora ou está se organizando para sair e quer entender como isso se aplica ao seu caso, entre em contato e vamos conversar a respeito.
Síntese em uma frase
Nos EUA pesa a cidadania; no Brasil pesa a residência — e as duas se desfazem, mas por caminhos bem diferentes.
Nota de fonte
Dados da lista trimestral de renúncias do Tesouro dos EUA (Federal Register, 23/07/2026), conforme reportado por IMI Daily em 03/09/2026: https://www.imidaily.com/north-america/americans-are-renouncing-citizenship-at-the-highest-sustained-rate-on-record/
Se o seu caso envolve a saída fiscal definitiva, veja também a página sobre saída fiscal.
Yuri Presendo · OAB/PR 66.396 · Presendo Advocacia
Conteúdo informativo; não constitui aconselhamento jurídico; cada caso depende de análise individual. Sem promessa de resultado nem urgência (Prov. 205/2021).
